Capa: Rafael Chimicatti
http://www.behance.net/chimicatti / https://picasaweb.google.com/chimicatti
EDITORIAL
Reconhecida já como uma área autônoma e produtiva entre os pesquisadores e críticos, as literaturas africanas de língua portuguesa tem sido o alvo de importantes reflexões e objeto de cuidadosos e relevantes investigações na atualidade. Temas como a viagem, a alteridade, a mestiçagem, a memória, a oralidade, os diferentes patrimônios culturais imateriais e as subjetividades de gênero, dentre outros, tem figurado na pauta das discussões em torno dos distintos sistemas literários que compõem o continente.
Percebendo a importância destes estudos e sua repercussão nos meios intelectuais, a revista Olhar deste ano abre um espaço frutífero de diálogos e interrogações com diferentes pesquisadores, oriundos de diferentes núcleos de pesquisa e participantes de distintas gerações na história da consolidação da área no Brasil.
Da mesma forma como múltiplo e rico é o continente, aqui, também, as perspectivas analíticas são diversificadas, desde uma abordagem mais ampla e panorâmica até uma centralização mais detida sobre um aspecto específico. Em quase todos, em vista disso, percebe-se uma espécie de viagem pelas diferentes literaturas e seus autores, e a riqueza temática que têm a oferecer aos olhares investigativos.
Como é de costume na composição do elenco autoral de ensaios inseridos na revista, revezam-se, aqui, pesquisadores recentes da área, já visivelmente interessados – basta perceber aquilo que começam a produzir –, colocando-se na condição mesmo dos “mais novos”, daqueles que, no desenvolvimento do seu pensar, não recusam e não abrem mão de dialogar com os investigadores que há mais tempo se dedicam aos estudos literários dos PALOP (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa). São estes os nossos “mais velhos”, que aqui também comparecem para dar uma contribuição inconteste das suas linhas de pensamento, a quem também, de certa forma, homenageamos como reconhecimento sincero pela generosidade com que enriquecem o nosso Dossiê de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa.
Aos leitores, desejamos que também compartilhem um pouco desta viagem múltipla e rica das Áfricas aqui apresentadas. E, sem querer roubar o prazer, esperamos que a experiência se constitua um pouco daquilo que Mia Couto, escritor moçambicano, muito sabiamente, afirmou sobre o continente africano: uma viagem de encantamento sobre esta terra marcada pelas diferenças e pelas mestiçagens, “que a tornam mais diversa e, por isso, mais rica”.
Ainda nesta edição, a Olhar, na sequência de sua tradição em contemplar os diálogos interdisciplinares, traz artigos e resenha nos quais a literatura e o teatro, a filosofia e a psicanálise, a filosofia e a psiquiatria, o cinema e a sociedade, a pedagogia e a política, por exemplo, encontram-se mesclados em debate. Ao lado destes, contamos ainda com a presença das belas fotos de Rafael Chimicatti e João Henrique Telarolli Teresani a pontuar uma vez mais o convívio do verbal e do não-verbal neste espaço.
Busca-se na Olhar estabelecer per si uma espécie de rito de atualização de ideias e ideais intra e intermuros acadêmicos, e, nesse agir, tem-se procurado difundir os saberes e resguardar nossa humanidade (tão em crise nos dias atuais), na direção do dizer sobre a casa de G. Bachelard:
A casa, na vida do homem, afasta contingências, multiplica seus conselhos de continuidade. Sem ela, o homem seria um ser disperso. Ela mantém o homem através das tempestades do céu e das tempestades da vida. (A poética do espaço)
Assim, apesar das dificuldades inerentes à manutenção de um periódico acadêmico, a Olhar – já em seu 14o ano – continua sua trilha na qual vocês, colaboradores e leitores, são parceiros incondicionais. Só temos a desejar novamente, portanto: boa leitura e boa viagem para todos!
Jorge Valentim (editor convidado, organizador do dossiê de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa)
Josette Monzani e Julio César de Rose (editores da Olhar)
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